terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Elas

A surda- muda
A artesã
A vaga abunda
A freira terçã
A mãe solteira
A vó que tudo sabia sabidinha
A menina sabiá
A branca preta pretinha
Caminha por minhas pernas largas
Escalam as minhas vivas veias
Mergulham em minhas tranças loucas
Fazem sarau em meu dia
O dia todo dançam:
Poesia

Amostras Grátis

O sim conserva o perfume das estrelas
O não, das bocas de lobos abertas, escancaradas
O talvez exala o erotismo das esperas
O agora e o nunca, um só pó aromático,
Convidativo se bem conservado

De tudo que tenho e posso
Não abro mão disso: das pequenas amostras de mim.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Vida

Desde que abri os olhos o tempo me escapa
Desde que abri os olhos o mundo, relógio
Escassa
Ex
Como caixinhas de música, pandora

Desde que o mundo me sobreveio,
Não sobrevôo

Sigo tomando conta de um cão raivoso que não tem nome
Só ameaça

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Setembro
















Tudo é noite em setembro

Um vasto tempo de alegrias pulsantes

Em brisa fria e quente

Como o distante e o perto ao mesmo instante


É fácil viver em tempos- primavera

Como se fosse a vinda de um parente distante

Abraço quente em dia frio

E a cada dia inquieto escuro,

Clarões seduzem vazios


Esses sorrisos- drops

Esses remendos de xita

Colorem minha pele lua

Num passar de dias simples, doce.


Recolorindo o tempo perdido

Envergando- me a suaves ventos

Anoitecendo

Setembriando

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Cansaço

Seria um colar de contas partido ao chão?

Seria um ciclista magro, subindo a ladeira, assobiando uma canção?

Seria a cárie, a otite antes de dormir?

Seriam os calos, as dores nas pernas, as rugas, o faz-me-rir?

Seria o fio de cabelo, grisalho e encaracolado em minha sopa?

Seria a mesma sopa, fria, sem graça, sem sal?

Seriam as hérnias, os discos, os CDs, e tal e coisa e coisa e tal?

Seria o PC reiniciando, a goteira, o relógio quebrado em dez para as três?

Seria o bebê acordando às quatro e cinqüenta e seis?

Seria o cansaço de aço, do dia, da festa, da lida, da vida?

Seria a vida?

Se for, me canso até cansar.

Vento

Parecia ser mais uma daquelas tardes. Eu, a caminho do trabalho, barriga cheia, empanzinada daquele sono de depois do almoço. Na estrada, um coletivo e eu na janela, para refrescar as sensações. Começo minha leitura, minha melhor sobremesa. Embebida nas palavras doces de minha poesia predileta. E enquanto casa e pessoas passavam, sentia a vida sem pressa, calma, mas foi impossível continuar. Quando dei por mim, ele, indiscreto e impiedoso, me interrompeu acabando com todas as aquelas degustações.
Ele, um vento safado, ladrão. Carregou em seus braços cada um dos papéis. E aquelas rimas e métricas foram substituídas por uma lírica fresca, silenciosa. Uma maré de vento norte, levando ao sul um universozinho, meu universozinho. No balanço de minhas argolas, meu instante de existência ventava. Minhas palavras, meus silêncios, minhas contas a pagar, meu futuro de ai-meu-Deus. E ele, já não tão inconvenientemente, sorria de pirraça. Num discurso engraçado, amistoso. Não pude resistir. Daquela janela aberta, abri um sorriso infantil. Uma resposta sem palavras, um riso cúmplice. Cócegas que não paravam de ventar em minha barriga, agora, cheinha de felicidade. Um riso passava por mim e ventava as outras faces, do corredor às janelas, da frente a fora. A caminho do trabalho meus lábios secavam, e ele, o vento, beijava minhas emoções. Desmanchei-me em mais puro ar. Antes mesmo que chegasse minha parada, defenestrei brisamente. A vida é gratuita - ventaniei.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Irresponsavelmente Amigos




Pra muita gente, amizade é um contrato. Daqueles assinados e devidamente autenticados por ambas (ou mais) partes. Protocolado, com data e hora marcada. Escrevente, testemunha, senha e tantas outras responsabilidades.
Pra mim não. Pra mim amizade é descompromisso. Isso mesmo. O descompromisso inadiável de ser eu mesmo, sem esquecer de me despreocupar com o que vão pensar de mim... Irresponsabilidade com os meus próprios interesses. Um caos da sorte. Um acaso inevitável.
A gente se bate, se esbarra, se encanta e fica. Vai ficando em um bilhetinho passado em sala de aula. Cheio de erros ortografico e palavras reduzid. Que vai e volta, sem testemunhas oculares- ainda mais se uma delas for ele: o professor.
Amizade é papel sim... Mas é aquele papel de fundo de caderno, rabiscado e espontâneo. É papel de bala IceKiss esquecido na bolsa. Papel de pão com o número do telefone que, se por acaso se perder, vamos fazer de tudo pra reencontrar.
Tá aí! Amizade é reencontro. É reunião marcada (só um pouquinho de previsibilidade senão a reunião nunca acontece), mas sempre cheia de improvisos. Um reencontro que pra acontecer pode passar por um suporte virtual. E aí que ela se manifesta em emails radiantes e mágicos. Abre-se e num instante somos invadidos por contagiantes e caóticas cócegas do além.
Enfim... amizade é um instante na biblioteca e noutro olhando um pôr-do-sol qualquer. Ao acaso. Sempre juntos. Apenas curtindo a doce irresponsabilidade de ser nós mesmos.