sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Belo Belo

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo - que foi? passou - de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.


(Manuel Bandeira)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Réplica

Estive pensando naquilo tudo que você me disse. Pensei e cantei cada palavra sua. É porque não consigo só ouvir. Desculpe. Preciso, vitalmente, redimensionar a mais simples respiração. E rumo a essa nova grandeza, não há espaço para nada abaixo de emoção. É disso que somos feitos. É sobre isso que quero cantar. Nascemos de emoção e nela morremos. A vida, enfim. Por isso, não consigo nada, além de uma linha que tange o choro e o riso. Não quero que você entenda. Não espero muito de você, que não seja pequenos papéis com onças e o selo do Banco Central. Não quero os seus adornos quero só o dente de leão que segue o vento na procura de paisagens-aquarela.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Apelo Leninico

Me ajude a ver a vida de uma outra maneira. “ME” ajude. Não vou usar ênclise, porque a minha necessidade está acima de qualquer regra. É o despertar de um protesto. Sou contra as normas que me levam a ter necessidades. Por isso, me desfaço terminantemente de qualquer coação que me leve a sentir frio.

Frio. Vento. Sol a pino. A estrada é feita de percepções. É por elas que peço: ME ensine a ver o caminho não pelo horizonte. Me ensine a mimar a estrada. Esquadrinhar cada pedaço de chão. Apelidar pedrinhas. Rir dos tombos, caducar os morros com todas as suas subidas e decidas. Quero ver. Não quero apenas a glória de chegar, porque aqui não sei onde estou indo. Quero chegar sim, mas não sem antes curtir um bom caminho. Uma boa caminhada com quem se ama. Uma conversa boa, daquelas que não vemos o dia passar. Daquelas que fazem nos perder entre sol e chuva. Quero tudo o que vale a pena.Quero fazer tudo valer a pena. Tudo o que me interessa, como já cantava nosso bom e velho Lenine.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

decidida



Então vou pegar as conchas do chão. Enquanto você passa e passa. Enquanto você pisa e pisa. Enquanto você se fere praguejando contra as ondas que as formaram. Amaldiçoando todo o cálcio que as cultivaram. Vou pegá-las todas. Todas as conchas que brilharem ao entardecer. Só as conchas que brilharem ao entardecer. Porque sei, e sei com a força das correntes marítimas, que na penugem do meu pescoço, uma a uma fincará seu limo. Em meu busto farto de vida, de mulher grávida de esperança, elas encontrarão toda a beleza que merecem. Porque de grãos, terão meus poros. Sentir-se-ão em lar salgado lar. Porque de água se fartarão com meu suor. E toda a água e sal que de mim vier. Porque essa é única forma de agradecê-las todas. Agradecê-las pela lição milenar de guardar inimigos em pérolas.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Achado

Acho que cheguei a uma conclusão. Talvez a mais importante de todas. Descobri o que somos. Somos o que encontramos nos últimos cinco minutos de lucidez diária. Exatamente os últimos cinco minutos do dia. Quando antes de pregar os olhos. Quando sonhamos sonolentos com dias melhores. Quando descansamos de um dia com número de série. Aquilo que nem nós mesmos discernimos. É o que somos.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Medo


No vale da sombra da morte
A sombra da morte
O vale
Assombra

No vale da sombra da morte
Não vale
A morte,
Só a sombra.

No vale da sombra da morte
Na sombra, o vale:
- Morte à sombra!

No vale da sombra da morte
A sombra:
Morte.
O vale:
A sobra.

Nu vale
Sem morte

Som

Som
Da sombra

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Ares e bocejos


E pra passar o tempo, ele boceja. Boceja porque a vida é sem graça e como toda piada mal contada, ela se perde em meio a um sorriso amarelo. Enquanto ele boceja, finge. Finge que não dói não ser feliz. Finge que se importa com os outros, ao entender que o outro é uma parte de si mesmo manifesta em forma maltrapilha de existir. Finge brilhantemente, com a destreza de um contorcionista, que é um homem à frente do seu tempo. Como se precisasse ser um homem à frente para não olhar para os lados.
Porque, como num dia de festa, ele descobriu que pra viver é preciso dizer quando não se quer falar, bocejar enquanto não sente sono, comer quando não se está com fome. Desde que todos queiram. Essa é única maneira de ele se importar com quem não reflete a mesma imagem que ele vê no espelho.